Raul Velloso, economista, propõe manter investimentos em infraestrutura
Texto: Redação AECweb/e-Construmarket
O economista disse que é preciso cortar os investimentos públicos ruins e manter os bons, que tenham rentabilidade
É preciso cortar os investimentos públicos “ruins” e manter os “bons” que tenham rentabilidade, como aqueles efetuados na ampliação da infraestrutura, levando ao aumento da produção e da produtividade e, consequentemente, da arrecadação. Caso contrário, o ajuste fiscal, necessário, não será seguido de crescimento econômico e novo ajuste será inevitável em 2015 para se conseguir o próximo superávit, a fim de que o Brasil não perca o grau de investimento.
Esta foi a recomendação feita pelo economista Raul Velloso, em palestra realizada no SindusCon-SP em 28 de abril. O evento, aberto pelo presidente do sindicato, José Romeu Ferraz Neto, foi conduzido pelo vice-presidente de Economia, Eduardo Zaidan.
Segundo Velloso, diante da rigidez do Orçamento, que destina a quase totalidade dos recursos federais ao custeio, esses gastos precisarão ser racionalizados e investimentos também precisarão ser cortados para se chegar ao superávit previsto.
O economista propôs que o secretário da Fazenda, Joaquim Levy, retome uma ação que empreendeu em 2003, quando era secretário do Tesouro no início do primeiro mandato do governo Lula. À época, segundo Velloso, Levy elencou uma série de projetos, os PPIs (Projetos Prioritários de Investimento) e convenceu o FMI a mantê-los fora da rubrica de gastos do Orçamento, o que ajudaria na conquista do superávit. Isto acabou não sendo necessário, porque o superávit foi obtido graças ao efeito positivo, sobre a arrecadação, do aumento dos preços das exportações de commodities, entre outros fatores.
Indagado se a proposta não seria vista como mais um lance de “contabilidade criativa”, Velloso considerou que isso dependeria de dois fatores: a presidente Dilma convencer-se do acerto desta opção e a realização de uma boa comunicação junto aos agentes econômicos e à opinião pública.
De acordo com o economista, para a atual crise não há saída via aumento das exportações, como ocorreu há 12 anos, nem mediante estímulo ao consumo, como foi feito em 2009. Assim, preservar os investimentos “bons” seria a única alternativa no curto prazo. Mas também são imprescindíveis reformas para diminuir os gastos com pessoal e pagamentos de benefícios assistenciais e previdenciários.
“Se nada for feito, em 40 anos esses gastos dobram e o Orçamento fica inviável. E, a cada ano, a situação se agrava devido a dois fatores: o envelhecimento da população e a regra maluca de reajuste do salário mínimo (correção pela inflação mais variação do PIB) acima da produtividade da mão de obra”, comentou Velloso.
Modelo esgotado – O especialista também chamou a atenção para o que considerou um erro dos governos do PT: expandir o consumo sem antever as consequências nem preparar mudanças antes que esse modelo se esgotasse. Muito consumo afeta a poupança necessária ao investimento e só se sustenta com a vinda de recursos externos. O câmbio aprecia num mundo inundado de dólares, o setor de serviços se amplia enquanto a indústria encolhe, e “a construção civil não se beneficia porque o governo faz tudo errado”.
Exemplificando, ele comentou que a indústria pediu compensação para a perda de rentabilidade derivada do crescimento dos salários acima da produtividade do setor, e ganhou as desonerações das folhas de salários – que agora o governo quer reduzir – e o crédito subsidiado do BNDES.
Velloso também disse ver fragilidade nos contratos das concessões de serviços públicos. Coerente com o modelo que privilegia o consumo, nas concessões o governo exige a menor tarifa, o que reduz a atratividade para o investidor, e mesmo assim encontra “aventureiros” dispostos a assumi-las, acrescentou. E como o governo não quer adotar o racionamento adotado sob o segundo mandato de FHC, “há risco de colapso energético no final do ano”.
Para Eduardo Zaidan, a palestra demonstrou as necessidades de mudança profunda do modelo de desenvolvimento, mais flexibilidade na utilização dos recursos públicos e correção das distorções na inflação, nos juros e no câmbio.

