Canteiro organizado reduz custos da obra
A perda do material no canteiro representa um gasto dobrado: a soma do preço do item ao custo de transporte e de descarte dos resíduos
24 de agosto de 2009 - O monte de areia depositado diretamente na calçada ou no terreno compõe uma cena comum nos canteiros de obra. E é indicativo de um problema que aumenta em até 40% os gastos com material de construção: a falta de gestão de resíduos, alerta o professor da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) Ubiraci Lemes de Souza.
Nem sempre é necessário ter acompanhamento técnico de um especialista para evitar desperdícios. Algumas precauções simples, como o correto armazenamento dos materiais -a areia, por exemplo, deve ficar sobre uma camada de brita (leia dicas nos quadros)-, já ajudam a minimizar as perdas.
"Não há cuidado na hora de receber, armazenar e carregar o material. Isso tudo significa perda", concorda Lilian Sarrouf, diretora-executiva do CBCS (Conselho Brasileiro da Construção Sustentável).
A perda do material no canteiro representa um gasto dobrado: a soma do preço do item ao custo de transporte e de descarte dos resíduos.
"Os principais [responsáveis por perdas na obra] são os serviços que envolvem moldagem, como revestimentos de gesso. Toda vez que o material endurece antes da aplicação, vira resíduo", exemplifica Souza.
No caso de cimentos e argamassas, só deve ser preparada a quantidade a ser usada em uma hora e meia. Depois disso, o material perde parte de sua capacidade de aderência, explica o professor Souza.
Gambiarras nas partes elétrica e hidráulica usadas durante a obra também são comuns e geram perda. Uma mangueira velha com vazamentos ou uma ligação elétrica com fios descascados no decorrer da construção custam mais do que a adequação das instalações.
No caso da eletricidade, o uso de um só ponto "sobrecarrega a instalação e gera perda de energia com o calor criado, além de ser perigoso", afirma Sarrouf.
Prevenção
Grande parte do desperdício pode ser evitada no projeto da construção: ele deve prever os tamanhos das peças utilizadas segundo os produtos à venda no mercado. Paredes e cômodos requerem um planejamento que leve em conta os múltiplos tamanhos de blocos e peças de cerâmica.
Tamanhos como um quarto e um oitavo de bloco são opções existentes. Apesar de mais caros do que a fração a que se referem, representam economia em relação ao bloco completo e ganho de tempo na obra.
Areia
Para que não haja contaminação da areia com terra, coloque uma camada de brita antes de despejar o material. Faça uma baia de madeirite em torno dele para que não se espalhe.
Sacaria
Cimentos e argamassa devem ser estocados em local seco e sem contato com o solo. O ideal é colocá-los sobre uma plataforma de madeira, protegidos da umidade.
Poeira
Materiais em pó, como cimento, devem ser preparados em local ventilado. A obra requer limpeza diária, com varrição; umedecer a poeira já melhora a qualidade do ar.
Reciclar
Embalagens de papel e de plástico devem ser separadas de demais resíduos. Para incentivar esse cuidado entre operários, faça uma festa financiada pela venda desse material.
Reúso
Batentes, portas, esquadrias e cerâmicas antigos podem ser reutilizados. A cerâmica pode servir em outro espaço ou como mosaico, para manter a memória da edificação.
Sujeira
Na reforma de um cômodo, para que o uso do resto da casa não seja muito afetado, é necessário vedar portas e janelas com plástico e espuma. Além disso, a obra deve ter entrada separada da casa.
Materiais e resíduos devem estar separados segundo o tipo
A produção de resíduos na obra se inicia quando o terreno é preparado para montar o canteiro. "Na hora da demolição tem de começar o gerenciamento de resíduos. Há uma quantidade enorme deles nessa fase", afirma Élcio Carelli, diretor da empresa de gestão de resíduo Obra Limpa.
Batentes, portas, janelas, peças de cerâmica e porcelana podem ser reutilizados. A parte de alvenaria deve ser separada como entulho e ser destinada a um aterro que receba esse tipo de material. "50% dos resíduos são alvenaria", estima o professor Ubiraci Lemes de Souza.
"Se bem triturado, com marrete ou máquinas, o entulho pode preencher buracos na construção", aponta a arquiteta Juliana Gehlen, cujo mestrado na Universidade de Brasília foi sobre gestão de resíduos.
Madeira precisa ser separada em outro local e destinada para reciclagem. Amianto e gesso não devem ficar junto com a alvenaria, já que seu descarte pode ser tóxico. Para restos de tintas e solventes, em geral tóxicos e inflamáveis, o ideal é contatar o fornecedor e saber qual destino pode ser dado às sobras.
Estoque
A principal recomendação na hora de estocar os materiais é seguir as orientações do fabricante: altura máxima para pilhas, local de armazenamento, ambiente com ventilação etc. Os materiais devem ficar próximos do ponto em que serão usados, para evitar o transporte dentro da construção.
"Em um canteiro limpo, perdem-se menos material e menos tempo. Obras com autogestão costumam ter o dobro da perda do que as com gestões profissionais", diz Souza.
Ecopontos recebem 1 m3 de material
Não basta saber qual é a origem dos produtos; o descarte dos resíduos também é uma responsabilidade do dono da construção.
No caso de reformas pequenas, em que a produção de resíduos não ultrapassa um metro cúbico por dia -o equivalente a uma caixa-dágua de mil litros- , o descarte pode ser feito nos ecopontos. São 37 locais espalhados pela cidade, que funcionam geralmente de segunda a sexta, das 8h às 17h.
Os ecopontos recebem gratuitamente todo material reciclável, desde plástico até alvenaria, sem a necessidade de que estejam separados.
Se a obra produz mais resíduos do que isso, a contratação de caçambas é necessária. Para garantir o envio do material a aterros legalizados, de acordo com a lei municipal nº 13.298, o morador deve contratar os serviços de empresas regularizadas.
Fonte: Folha de São Paulo

